PIERRE FATUMBI VERGER: PESQUISAS DE CAMPO E GRAVAÇÕES SONORAS
diálogos possíveis e impossíveis
Angela Lühning - UFBA
Idéia principal desta pequena contribuição é refletir sobre a maneira com a qual Verger se comunicava com as pessoas ao seu redor e como ele realizava as suas pesquisas – especialmente em relação a gravações de músicas e textos orais. Como ele chegou a juntar e documentar aquilo que hoje constitui o acervo da Fundação Pierre Verger e o que há de específico nestas suas pesquisas? Uma primeira análise destas diversas informações se faz no intúito de contribuir com uma primeira avaliação de como Verger provavelmente tem trabalhado durante a sua vida, ou pelo menos numa fase de sua vida, e de que forma ele tem se comunicado com as pessoas, dialogando através de diversos meios. A busca destes diálogos e discursos possíveis e impossíveis será o tema deste trabalho, embora tenha consciência de seu formato não conclusivo e apenas inicial, no sentido de instigar outros trabalhos que possam complementar este primeiro esboço.
Recentemente alguém me perguntou: “Pois é, como Verger fez as suas pesquisas? Onde estão os seus diários de campo, os textos das entrevistas realizadas?” Tive que confessar que não sabia informar a respeito de detalhes da realização. Sabia apenas algo a respeito dos resultados das mais diversas pesquisas. Quais? Anotações, documentos copiados, livros marcados, fita cassetes e fitas de rolo gravadas, muitos destes materiais tendo sido transformado em livros. Com que tipo de informação? Com tudo que interessava Verger: religião, textos orais, documentos históricos, formas e modos de vida, histórias de vida, e também músicas e danças. Esta pergunta inicial me fez refletir mais, seguindo-se outras perguntas subsequentes a respeito dos processos e meios através dos quais ele tem levantado e compartilhado estas informações e, finalmente, como ele mesmo se referia às suas experiências de campo e pesquisa.
Poderiamos começar as nossas reflexões até com a pergunta como Verger se enquadra no perfil de um pesquisador, digamos tradicional, pois, de certa forma a sua atuação foge da formação acadêmica pressuposta quando se pensa em pesquisa nos dias atuais. A forma de Verger inteirar-se com outras culturas vinha de uma curiosidade certamente não alimentada por uma necessidade de afirmação acadêmica ou um cumprimento de obrigações frente às agências financiadoras. A sua curiosidade era em primeiro lugar movida pelo interesse que ele tinha no ser humano integrante de uma certa cultura e a expressão de sua identidade que resultava daí. Além disso, ele se identificava especialmente com a África e em primeiro lugar com a cultura iorubá, vendo como uma das suas atividades a pesquisa, compreensão e divulgação desta cultura tão presente no Novo Mundo, ressaltando as suas especificidades.
Verger, francês de nascimento, africano por paixão e baiano por opção (nascido em 1902 e falecido em 1996) foi uma pessoa que em todas as suas atuações sempre abordou o outro: tendo viajado pelos mais diversos países como fotógrafo, como curioso à busca de algo diferente da vida familiar e dos contextos sociais na França da época de sua juventude. Como existem pessoas que tem medo do outro, diferente e novo, existem outros que se sentem atraídos por ele. Verger certamente fez parte deste segundo grupo. Observando as suas viagens incessantes pelo mundo, a partir de 1932, percebe-se como ele literalmente viajou pelo mundo inteiro com a exceção de poucos continentes e países. Essa busca do diferente, – e é importante ressaltar: sem nenhuma segurança econômica, pois vivia daquilo que a venda ou troca das suas fotos lhe permitia como nível de vida – não tinha nada de sistemático na sua fase inicial que durou quase 20 anos. Essa situação mudou radicalmente quando ele conheceu a Bahia em 1946 e através dela redescobriu a África a partir de1948, tendo visitado-a pela primeira vez em 1934, porém, ainda sem ter entendido a sua dimensão além-mar.
Na vida deste singular ser humano podemos observar diversas fases: primeiro a do fotógrafo, depois a do fotógrafo observante que começa a dividir a autoria de textos com jornalistas e escritores, mais tarde a do pesquisador na área de história e religião afro-brasileira que deixa aos poucos de fotografar para se dedicar apenas aos seus estudos que se transformam, especialmente no final das vida dele, em livros de referência. Neste trabalho toma-se uma destas experiências menos conhecidas como ponto de partida para abordar a sua atuação como pesquisador na área de música.
Para muitos certamente será algo novo e até estranho imaginar que o fotógrafo, antropólogo, historiador e eternamente curioso Pierre Fatumbi Verger tenha se interessado por aspectos musicais, sonoridades ou até uma documentação de estilos musicais. Porém, esta atividade se explica pelos próprios assuntos abordados nas suas primeiras pesquisas.
Após a fase em que Verger atuava exclusivamente como fotógrafo, ele começou a se dedicar a outras atuações como p.ex. a pesquisa. Acredito que uma das primeiras pesquisas tenha sido o levantamento de dados que ele fez na Nigeria e no Benin entre negros brasileiros que tinham retornado à África, por volta de 1900. Este material foi transformado mais tarde numa serie de 5 artigos que foi publicada em conjunto com Gilberto Freyre em 1951 em O Cruzeiro, denominada: “Acontece que são baianos”. Na correspondência entre os dois autores existem indicações sobre os caminhos tomados.
A partir destas primeiras experiências Verger percebeu que ele, além de fotografar, também podia escrever, apesar de nunca ter se interessado antes por um mundo acadêmico de pesquisa e nem sequer ter tido formação acadêmica. Seus textos são em grande parte descritivos e de levantamento que resgatam fatos, que se tornam cruciais para a reconstituição da história afro-brasileira e africana em alguns dos aspectos. Reflexo destas primeiras buscas são também inúmeros textos que ele preparou como reportagens (texto e imagem de Verger) para O Cruzeiro Internacional, até hoje inéditas.
Neste momento surge a pergunta, como ele teria trabalhado para levantar os dados, posteriormente transformados em seus textos: pesquisas de campo num sentido mais antropológico com observação participante, convivências com pessoas, leituras e fundamentação teórica? Até agora só existem poucas informações sobre estes procedimentos. Como ele dizia no final da vida dele, muitos dos assuntos e dos contatos surgiram de forma informal ou até casual e levaram à gradativa descoberta de documentos e fatos adormecidos e negligenciados pela história oficial, incluindo histórias de vida de descendentes de escravos e libertos que retornaram à África. Dentro deste cenário encontram- se as experiências iniciáticas de Verger que o aproximaram às pessoas. Em um momento em que a política colonial oficial – não podemos esquecer que no início das viagens de Verger à África os países da África Ocidental ainda não tinham conseguida a independência – não tinha nenhum interesse em tradições locais, o interesse de um branco, representando um possível contato com outras partes do mundo, certamente chamou a atenção da população local e muitas vezes tem propiciado um acesso aos contextos culturais e religiosos.
Todas as suas pesquisas e seus textos mais conhecidos giram em torno da cultura iorubá que para ele foi a grande descoberta de sua vida, tendo Verger ficado um porta-voz em uma época em que se dava ainda pouca atenção a outros códigos culturais e religiosos. Segundo Ulli Beier, um dos seus colegas do tempo passado na Nigeria, especialmente nos anos 50 e 60, Verger tinha o objetivo de através de seus estudos e suas contribuições fazer com que a cultura e religião iorubá ganhassem o reconhecimento merecido e através dos seus escritos até uma documentação que dentro de um mundo reinado pela escrita dêsse mais credibilidade e visibilidade a esta religião e cultura.
Uma das primeiras supresas a trabalhar sobre Verger foi descobrir que ele mudou a sua posição frente à pesquisa durante a sua vida, e dificilmente é possível chegar a uma visão conclusiva e completa sobre a sua atuação, pelo menos por enquanto. A sua vida foi vista e acompanhada por pessoas diferentes em diversos momentos de sua vida e comentado por ele mesmo de diversas formas durante a sua vida. Podemos dizer que os discursos de sua atuação mudam durante os tempos, embora dificilmente possam ser avaliados por uma pessoa só, devido ao fato de ter vivido em tantos lugares diferentes na sua vida, sem ter sido acompanhado constantemente pela mesma pessoa durante este seus 60 anos de viagens e pesquisas.[1] Mesmo talvez não tendo sido uma pessoa muito eloquente e desinibida, como as vezes ressaltado por ele e outros, ele não deixa de ser um grande propulsor de comunicação entre mundos que tinham perdido a razão de algum contato maior entre Brasil e África, pois econômiamente e politicamente não existia a mesma importância de um contato vivo a partir do sec. 20, como o tinha existido em séculos anteriores. Porém, graças ao trabalho de Verger, a redescoberta destes contatos históricos tornou-se uma necessidade do lado brasileiro como aos poucos também do lado africano, além de estimular os contatos entre todos os países da Diáspora negra, na medida em que compartilhavam heranças culturais, no caso a cultura iorubá, além de outras, em comum.
Os meios utilizados por Verger durante os anos de documentação variam bastante: inicialmente existe a utilização do meio fotográfico, em conjunto com a convivência e aproximação, mais tarde a descrição em palavras, e, além disso, ou que é menos conhecido a documentação sonoro. Especialmente acerca o sonoro existe uma certa dúvida em relação ao interesse que Verger tinha ou não pelo sonoro e especialmente pelo musical. Encontrei diversas informações acerca do interesse pela música, ou melhor por diversos mundos musicais. Ulli Beier relata o interesse que Verger tinha por música erudita, pelo menos nos anos 50, um interesse que ele dividia com colegas e amigos, algo perfeitamente normal dentro de um certo contexto social e ambiente cultural da época. Mas este interesse não somente ocorria quando ele se encontrava em Paris, mas também em outros lugares: Existe uma foto em que Verger aparece num quarto de trabalho, provavelmente na África, à luz de vela, cercado por gravações de compositores eruditos. Porém, no final da vida dele nunca comentava algum interesse específico por musica erudita. Somente mencionava que não entendia de musica e que não era especialista. Mas, ao mesmo tempo ele dizia que tinha uma profunda paixão pelo som dos conjuntos de batá nigerianos, pela som sutil dos seus guizos em conjunto com as batidas candenciadas nos dois couros. Porém, ele usava a mesma argumentação anterior, dizendo que não entendia de música. Mesmo assim, o seu interesse não ficou somente no nível da paixão: o que poucos sabem, Verger realizou também gravações musicais. Em parte trabalhava em conjunto com o seu colega e amigo etnomusicólogo Gilbert Rouget, e em parte sozinho, porém, certamente acessorado e estimulado inicialmente por Rouget, quem primeiro tinha disponibilizado um gravador portátil de rolo, antes de ser substituido pelos gravadores de fita-cassete, posteriormente usado em outros contextos. Verger de fato chegou a gravar em diversos contextos, embora as gravações certamente não representam a parte mais reconhecida e representativa de sua atuação.
Mas as documentações sonoras e musicais de Verger são mais do que meras documentações casuais ou curiosidades. O importante é o discurso desta expressões musicais, muitas vezes sendo auxiliadas por fotos. Verger levava fotos de uma lado do Atlântico para o outro e ao mesmo tempo ele teve um interesse muito grande em disponibilizar o som musical da cultura iorubá através de gravações para os envolvidos nos dois lados do Atlântico. Descobrimos no acervo de Verger os manuscritos de dois programas de rádio, em que Verger em 1958 apresenta música do contexto africano e afro-brasileiro dentro de uma série chamada “Vamos cantar a Bahia”, um programa organizado por Claudio Tavares (irmão de Odorico Tavares), ambos trabalhando nos Diários Associados, ligados ao império de Assis Chateaubriand. Os dois mencionados programas foram apresentados na Rádio Sociedade, num programa de auditório, como era habitual na época. Verger é apresentado no texto falado, redigido por ele mesmo e aperfeiçoado por Claudio Tavares, como “misto entre cientista e poeta e de aventureiro lírico”. Os programas de meia hora cada incluiam um texto de apresentação de Jorge Amado, palavras de Gilberto Freyre, a saudação de um rei africano, em tradução, gravações de conjuntos de tambores da Nigeria e gravações do candomblé baiano. Ponto alto e de partida foi a conversa gravada entre Verger e duas senhoras africanas em Lagos em 1958. Elas nasceram no Brasil e retornaram com seus parentes em 1900 à Africa, ainda meninas. Na entrevista veículada elas falam de seus parentes no Brasil, dos quais tomaram conhecimento através dos relatos de mãe e avó, e cantam as modinhas que aprenderam ainda no Brasil. Falta complementar que uma destas Senhoras mais tarde, nos anos 60 realiza o sonho dela de rever o Brasil.
Estes fatos mencionados em torno destes dois programas permitem uma análise interessante da época, das redes sociais de Verger e dos discursos existentes e utilizados, mais ainda pensando no inusitado deste fato: dentro de um auditório que normalmente atraia mais pessoas da classe média do que necessáriamente de classes sociais mais baixas, em grande parte negras, falou-se da África, de cultura afro-brasileira, incluindo até discursos de reis africanos e africanas/ brasileiras nascidas no Brasil. Certamente foi uma surpresa ou até uma ousadia, levando em conta que nos anos 50 ainda continuava o discurso oficial da busca e consolidação de uma cultura baiana cunhada nos exemplos europeus, em detrimento de qualquer reconhecimento de culturas locais. Verger mostrou as sonoridades da África para o público baiano numa época em isso era uma total novidade, com exceção de alguma poucas investidas anteriores como p.ex. transmissões musicais ao vivo com música de candomblé organizadas por Edson Carneiro no final dos anos 30, fato não muito conhecido até hoje. Porém, gravações de campo, gravadas ao vivo de fato, que ainda hoje são exceção, na época tinham poucos anos de existência.
Mas as preocupações e os interesses de Verger iam mais longe: antes destes programas de rádio ele tinha levado as gravações de música de candomblé, realizadas em 1956 por uma colega francesa, Simone Dreyfuss, em Salvador, mais precisamente no Axé Opo Afonja, para a África. (Nota-se de passagem que esta gravação, realizada ao vivo, ao meu conhecimento é a única que se tenha permitido naquela casa de grande respeito.) Como Verger escreve numa carta a um dos seus amigos, os orixás africanos até dançaram ao som dos atabaques baianos passados pela gravação. Para entender a abrangência deste fato, aparentemente apenas pitoresco ou curioso, é necessário lembrar que na África Ocidental existe uma íntima relação entre linguas tonais e suas transformações em timbres sonoros de tambores. Estes por sua vez são mais tarde decodificados em movimentos nas diversas danças, especialmente religiosas. O mesmo fenômeno acontece na diáspora africana no Novo Mundo, mantendo, pelo menos até certo ponto, esta mesma interrelação entre diversas linguagens que ultrapassam a noção racional europeia associada a estes fenômenos. As decodificações de estímulos sonoros em movimento corporal precisam ser entendidos como formas de memória, memória corporal, tão abrangentes e complexas quanto formas de memórias mais racionais No exemplo relatado podemos então perceber que os discursos verbais, transferidos para os “discursos” sonoros, em forma dos sons dos atabaques, conseguem ativar a sua decodificação destas linguagens, memorizadas numa memória cultural e individual, em movimento. Naquele momento a linguagem musical trazida do Brasil (que é uma reinterpretação das matrizes que no passado foram levados para o Brasil) é compreendida e o processo comunicativo, baseado em trocas, se completa.
Durante os últimos tempos estou chegando cada vez mais à convicção que Verger tinha uma sensibilidade muito grande e percebia, talvez intuitivamente como as músicas, os sons e as falas transportados de uma lado do Atlântico para o outro, poderiam reativar contatos e ligações e evocar o semelhante, tudo para ajudar no fortalecimento da identidade cultural dos afro-descendentes. O seu discurso pessoal se constroi neste sentido através do discurso dos outros que talvez ainda nem tenham se dado conta que estavam iniciando um processo de comunicação, temporariamente adormecido e em vias de ser submetido a uma política de esquecimento e de negação, como ocorreu durante séculos no Brasil, reflexo de uma visão que atribuia o conceito de cultura apenas à cultura européia e jamais às culturas africanas ou indígenas.
Essa observação faz lembrar de um pequeno texto de um dos melhores amigos de Verger: Roger Bastide. Neste texto, entitulado: “A propósito da poesia como método sociológico”, originalmente publicado em 1946, Bastide, que tinha um estilo pessoal muito próprio, simples na complexidade e densidade da abordagem e análise, reflete em forma de um diálogo imaginário sobre a questão da poesia, não enquanto linguagem/ estilo, mas enquanto percepção sensível (“intuição poética”), capaz de expressar todos os elementos da vida tão irracional, para “alcançar uma fidelidade mais precisa”. A forma com a qual Verger realizou as suas mais diversas pesquisas ressalta esta visão do sensível e poético neste sentido. De certa forma a busca de Verger em encontrar as mais diversas formas de descrição, documentação e interação seria no fundo o mesmo tipo de pensamento que Bastide expressou no referido texto. Poderíamos ver a atuação de Verger em analogia com este pensamento de Bastide[2].
Verger tinha a intenção de dar voz, na dimensão real e simbólica, aos diversos representantes da cultura africana e afro-brasileira, para elas serem ouvidos no outro lado do Atlântico. Esta postura completamente nova ficou pouco conhecida e ainda não compreendida como deveria. Os cantos dos brasileiros na África mantendo as suas tradições baianas, constituiram um capítulo novo nos estudos afro-brasileiros, infelizmente pouco conhecido, reativando uma memória individual, cultural e social que em muito colaborou na redefinição de uma nova identidade dos afro-descendentes. As duas senhoras foram gravadas outras vezes, mas nenhuma destas gravações consegui ouvir, apenas localizar. Elas serão de grande interesse também para a área de linguística. Verger chegou a intensificar as suas experiências sonoras através de alguns filmes que ele realizou no início dos anos 70, já com 70 anos de idade. “Brésiliens d’Afrique e africains du Brésil” continua desconhecido em grande parte no Brasil, embora mostrado às vezes na França. Filmes mais recentes com a mesma temática levaram o merito deste tipo de trabalho de contato intercultural, provavelmente sem saber e reconhecer que Verger já tinha feito trabalhos anteriormente.
Como é possível ver em algumas correspondências do final dos anos 50, Verger tinha a intenção de continuar as suas experiências com os programas de rádio, preparando um disco que pudesse aproximar as duas culturas da religião dos orixas dos dois lados da Atlântico através dos toques, ritmos e canticos em iorubá, mostrando as semelhanças. Porque este disco não se concretizou, ou se ao menos foi iniciado, ainda não sabemos, mas é um fato que Verger realizou uma gravação extensa em umas das casa de candomblé em Salvador em meados dos anos 50, certamente já pensando na possibilidade de documentação.
Diálogos podemos entender em diversos sentidos: diálogos que Verger teve com as culturas em questão, diálogos que foram iniciados através das atuações dele entre diversas culturas, possíveis e necessários, embora passassem por obstáculos de incompreensão e de desinteresse. Diálogos também entre as diversas fases da vida de Verger: Verger olhando na retrospectiva sobre a sua própria atuação, demonstrou um discurso próprio e autocrítico sobre os discursos e diálogos desenvolvidos anteriormente. E mais, hoje já tem os discursos de terceiros que começam a abordar a vida de Verger e sua forma de interagir com as pessoas, desta forma criando um outro tipo de discurso sobre Verger e sua atuação. Todos estes diversos níveis de discurso precisam ser compreendidos e analisados de forma cuidadosa.
No final da vida dele Verger não assumia que ele teria feito pesquisa de campo ou algo parecido, mencionava pesquisas de arquivo, mas relativo às pessoas sempre ressaltava que ele teria convivido e teria passado pos certas experiências como diversos rituais que teriam facilitado uma certa aproximação e o direito de saber coisas que ele considerava de importância para a compreensão daquela cultura. Por que será que ele não julgava a pesquisa algo fundamental na sua atuação? Podemos apenas especular a respeito dos possíveis motivos o que não cabe aqui.
As suas pesquisas sob sonoridades e especialmente a música no contexto ritual em conjunto com a dança não foram fixadas de uma forma mais sistemática: existem os documentos levantados em si, porém não foram feitos discos ou outras documentações, a disposição de um público maior, que hoje pudessem dar testemunho de suas atividades. (Exeção são alguns discos que ele realizou como co-autor com Gilbert Rouget). Porém, em muitas cartas da época há uma forte preocupação com esta temática e uma constante alusão a assuntos musicais, incluindo terminologias próprias. Todas estas atividades mencionadas para alguns talvez até sejam consideradas algo ultrapassado, comparando-as com as modernas formas de comunicação, no mundo globalizado de hoje, tão ágeis e imediatas que talvez não deixem imaginar como teria sido demorado e até inexistente este contato entre continentes numa época não tão distante. Mas podemos ter certeza que muito daquilo que se considera hoje como algo normal na auto-definição de etnicidade e identidade cultural dos afro-descendentes no Brasil em muito deve aos estudos de Verger.
Talvez a busca de diálogo tenha sido um dos principais elementos da atuação de Verger, usando todos os meios de documentação possíveis e acessíveis na sua época, através das fotos que as pessoas de outros contextos olhavam, passando pelo auditivo, ouvindo as vozes e ritmos do outro lado do Atlântico, até a entrega de cartas de parentes, de pessoas de um mesmo grupo religioso, reatando e recriando laços até então adormecidos, certamente ajudando a fortalecer que era de imensa importância para ele e era o seu discurso principal: a compreensão mútua entre pessoas, culturas e raças diferentes que pudessem se respeitar nas suas especificidades, características e diferenças, sem se deixar guiar ou deixar influenciar por sentimentos de superioridade ou inferioridade. A mensagem e o exemplo que a atuação de Verger deixou para nos certamente é a forma com a qual ele reatava laços de igual para igual, conseguindo algo que nem sempre é uma realidade concretana antropologia: a retribuição dos resultados de uma pesquisa e sua aplicabilidade no contexto cultural em que está inserida.
Referências Bibliográficas:
BASTIDE, Roger. A propósito da poesia como método sociológico. In: QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de (org.) Sociologia. São Paulo, Edit. Ática, 1983, p.81-87.
BEIER, Ulli. Erinnerungen na Pierre Fatumbi Verger. In: Überschreitungen. Trickster Jahrbuch Bd.1, Wuppertal, Peter Hammer Verlag, 1997, p.152-164.
FREYRE, Gilberto, VERGER, Pierre. Acontece que são baianos. O Cruzeiro, 11,18, e 25 de agosto e 15 e 22 de setembro de 1951.
LÜHNING, Angela. Pierre Fatumbi Verger e sua obra. Áfro-Ásia 21-22, Salvador, 1989/99, p. 315-364.
[1] As minhas reflexões e observações baseiam-se nas conversas que tive de forma sistemática e frequente nos últimos 10 anos da vida dele, já voltadas para questões que giravam em torno de questões relacionadas com as suas buscas, pesquisas e perguntas. Elas são complementadas através de materias deixados por ele em forma de anotações, entrevistas, cartas e gravações de anos anteriores, normalmente referindo-se a momentos e contextos nos quais ele compartilhava a sua vida com outras pessoas que no final da vida dele não estavam mais presentes.
[2] E apesar de terem trabalhado pouco junto pessoalmente, mas sim trocando idéias sobre assuntos conhecidos pelos dois, teve um momento de encontro muito intenso, que por coincidência culmina com a fase muito intensa da vida de Verger em que ele estava experimentando este universo do discurso sonoro. Em 1958, mais exatamente em julho deste ano, Verger chegou a mostrar o seu mundo na África a Bastide que passou dois mêses com ele, conhecendo pela primeira vez a África no cotidiano da convivência com pessoas em diversos contextos. Este contato e a troca de idéias certamente intensificaram a amizade dos dois que foi acompanhada por uma correspondência intensa durante mais que 25 anos.)